Autor João Moraes
Todos
os anos, celebramos em 14 de abril o Dia Mundial do Café. Para o Brasil, a data
merece ainda mais destaque, pois somos o país com maior produção e exportação. O
grão faz parte da história e da cultura nacional, tem um papel relevante na
base de nossa economia e está presente na rotina dos brasileiros, seja em suas
versões mais simples ou sofisticadas. Mas seu papel vai muito além disso.
A
pandemia afetou fortemente diversos setores, inclusive alguns produtos do
agronegócio, e o café não passou ileso. Com o fechamento de restaurantes,
hotéis, cafeterias e escritórios, o mercado interno sofreu alterações
importantes, apesar de termos visto um crescimento no consumo domiciliar da
bebida e o surgimento de novos rituais de café em casa – talvez insuficientes
para equilibrar essa balança.
Nesse
sentido, o comércio exterior também deve ser estudado, afinal o café é uma das
commodities com maior flutuação no mercado internacional. Alguns eventos
climáticos, como o grande volume de chuvas que atrasaram a colheita no Vietnã
no começo do ano, os furacões que
assolaram Honduras ano passado e a confirmação de uma colheita menor em cerca
de 500 mil sacos na Colômbia, três grandes protagonistas na produção mundial do
grão, reduziram a disponibilidade e elevaram o preço do café. E mesmo após uma
safra generosa em 2020, o atual cenário no Brasil também não foi dos melhores.
Em setembro e outubro do último ano, registramos meses extremamente quentes e praticamente sem chuvas no cinturão cafeeiro,
especialmente na região Sudeste, o que prejudicou o pegamento da florada e
estimulou um aumento importante na área de podada – um impacto que não pode ser
recuperado ao longo da safra. O bom volume de chuvas desse início de ano
beneficiou o enchimento dos frutos que vingaram e a recuperação da vegetação,
mas isso não repõe o prejuízo gerado pelo clima em setembro e outubro de 2020
para a colheita de 2021.
Além
das variáveis citadas acima, o café é uma cultura de comportamento bienal, ou
seja, sempre temos um ano de alta produção, seguido por um ano de resultado
mais baixo. No Brasil, os anos pares são os
positivos, e podem ser recordes
se o clima e o preço continuam a favor do produtor. Como estamos em um ano
ímpar, um recuo na safra já era esperado, e no 1º levantamento de safra da
CONAB, a instituição já trabalha com uma
previsão de 43,9 a 49,6 milhões de sacas
para 2021, com diminuição relevante no café arábica que poderá alcançar quase
40% de redução frente a 2020, cenário esse agravado por impactos climáticos, como a falta de chuva, e
aumento na área de poda. Por isso, o grande desafio para a cultura este ano
talvez esteja na incerteza da relação oferta/demanda.
Agora
que caminhamos para o início da colheita, o produtor rural precisa tomar
decisões difíceis, já pensando na próxima safra. Temos um cenário de dólar
alto, que apesar de valorizar o grão exportado, aumenta o preço dos principais
insumos, como defensivos e fertilizantes, e do combustível. Também tivemos uma
valorização da mão de obra no campo e dos próprios processos, que atualmente
exigem mais cuidados por parte dos cafeicultores devido à Covid-19.
Outro
ponto que demanda cada vez mais atenção do setor cafeeiro é a sustentabilidade,
exigência não apenas do mercado global, mas uma preocupação crescente do
consumidor interno também. A cadeia de valor do café, com grandes empresas e
traders, tem se posicionado fortemente para reduzir os impactos do campo à
xícara do consumidor, estimulando a transformação em todas as etapas – trabalho
que pode ser exemplo para o agronegócio global.
Quando
olhamos para a produção do café, os estudos nos permitem afirmar que grande
parte das emissões é oriunda do uso incorreto de nitrogênio para a nutrição do
cultivo. Porém, as melhores práticas agrícolas, acompanhadas por assistência
técnica e incluindo programas nutricionais que substituem a fonte de nitrogênio ureia por fórmulas com nitratos,
permitem ao produtor alcançar uma
resposta rápida e relevante em relação aos impactos ambientais por meio de maior
produtividade de sua lavoura. A ureia está sujeita a altos níveis de volatilização
– processo químico que resulta na perda de parte de sua composição como forma
de gás ao ser aplicada em determinadas condições climáticas. Pesquisas mostram
perdas superiores até mesmo a 50% em condições extremas.
É
muito importante que os produtores observem também o balanço nutricional, incluindo
macronutrientes secundários (Cálcio, Magnésio e Enxofre) e os micronutrientes
(principalmente Boro, Zinco, Manganês), além do NPK. Programas nutricionais que
incluam produtos com excelência em sua fabricação e balanço adequado de
nutrientes com base em nitratos não só reduzem as emissões de gases de
efeito estufa (GEE), mas também permitem que o agricultor produza mais com
menos, por meio da eficiência do uso do ponto de nitrogênio e balanço
nutricional, melhorando os rendimentos agronômico, econômico e ambiental da
cultura.
Nesse
sentido, os investimentos frequentes dos agricultores brasileiros em melhores
práticas, qualidade de insumos, inovações na produção, qualidade e
comercialização de café, têm colaborado para que o país se destaque em relação
aos outros players mundiais – mesmo em cenários adversos como o atual. Os
avanços na cultura são cada vez maiores, e isso envolve o uso intensivo de
análise de solo e folha, adubação equilibrada, além de programas nutricionais
que trazem uma gama de nutrientes adequada à cada etapa da lavoura. E esse
protagonismo brasileiro é uma grande conquista, principalmente quando analisamos
que o café é uma cultura predominantemente dominada por pequenos produtores em
nosso país, com uma média de sete hectares cada, que geralmente enfrentam mais
desafios no acesso ao crédito, à tecnologia e outros fatores.
É
com trabalho sério e comprometido que o Brasil seguirá sua liderança no mercado internacional do café: desenvolvendo
segmentos de alta performance, cafés de qualidade, segurança produtiva e buscando
a neutralidade em carbono. E somente dessa forma, com uma atuação integrada
entre todos os players da cadeia na promoção desse “ecossistema positivo”, que seguiremos na direção certa para alcançar
um ponto comum entre a viabilidade econômica, ambiental e social para a cultura
do café.
João Moraes é diretor de contas globais na Yara Internacional.