Inoculação da soja e uso de micronutrientes

Inoculação da soja e uso de micronutrientes

 

Ieda de Carvalho Mendes

Engenheira agrônoma e pesquisadora da Embrapa Cerrados

ieda.mendes@embrapa.br

Mariângela Hungria

Engenheiro agrônomo e pesquisadora da Embrapa Soja

 

A FBN é o processo pelo qual o nitrogênio presente na atmosfera é convertido em formas que podem ser utilizadas pelas plantas - Crédito Shutterstock
A FBN é o processo pelo qual o nitrogênio presente na atmosfera é convertido em formas que podem ser utilizadas pelas plantas – Crédito Shutterstock
Ieda de Carvalho Mendes - Engenheira agrônoma e pesquisadora da Embrapa Cerrados
Ieda de Carvalho Mendes – Engenheira agrônoma e pesquisadora da Embrapa Cerrados
Nódulos de soja, com interior cor de rosa, indicando a presença da leghemoglobina e, consequentemente, de um processo ativo de fixação de nitrogênio
Nódulos de soja, com interior cor de rosa, indicando a presença da leghemoglobina e, consequentemente, de um processo ativo de fixação de nitrogênio
O sucesso da inoculação da soja brasileira
O sucesso da inoculação da soja brasileira ” que dispensa totalmente a necessidade de uso de adubo nitrogenado nessa cultura ” é reconhecido nacionalmente e internacionalmente – Crédito Shutterstock

Após a fotossíntese, a fixação biológica de nitrogênio (FBN) é considerada o mais importante processo biológico do planeta, sendo fundamental para a vida na terra. A FBN é o processo pelo qual o nitrogênio presente na atmosfera é convertido em formas que podem ser utilizadas pelas plantas.

A reação é catalisada pela enzima nitrogenase, que é encontrada em todas as bactérias fixadoras. Em termos de agricultura, a simbiose entre bactérias fixadoras de nitrogênio (denominadas rizóbios e bradirizóbios) e plantas leguminosas (família à qual pertence a soja, o feijão e a ervilha) é a mais importante.

Após a formação de nódulos nas raízes dessas plantas, a bactéria passa a fixar o nitrogênio atmosférico em compostos orgânicos que são utilizados pela planta, diminuindo o uso de adubos nitrogenados.

Os rizóbios

No Brasil, graças ao processo de FBN, a inoculação ” adição de rizóbios às sementes de soja no momento da semeadura ” substitui totalmente a necessidade do uso de adubos nitrogenados nas lavouras de soja. Embora esse processo seja conhecido desde o século XIX, foi necessário um grande esforço das instituições de pesquisa brasileiras para desenvolver e selecionar bactérias adaptadas às nossas condições, especialmente o Cerrado.

Em 1980 foram lançadas para a região do Cerrado as estirpes de rizóbio SEMIA 5019 (29W) e SEMIA 587 e em 1993 as estirpes SEMIA 5080 (CPAC-7) e SEMIA 5079 (CPAC-15), mais eficientes que as estirpes que haviam sido lançadas em 1980. O inoculante, produto que chega aos agricultores, contém essas bactérias selecionadas pela pesquisa.

Se considerarmos os 27,7 milhões de hectares plantados com soja no Brasil, a economia proporcionada pela não utilização de adubos nitrogenados é da ordem de R$ 24,9 bilhões, algo em torno de US$ 10,3 bilhões de dólares.

Benefícios

Os números realmente impressionam, mas os benefícios da inoculação da soja não param por aí. Um dos problemas com a utilização dos fertilizantes nitrogenados industriais reside na baixa eficiência de sua utilização pelas plantas quando aplicados ao solo, raramente ultrapassando 50%.

Isso significa que quando o agricultor aplica 100 kg de N, 50 kg podem ser perdidos por diferentes processos que ocorrem no solo. Um desses processos é a lixiviação, que é lavagem do perfil do solo por percolação ou escorrimento superficial da água de chuva ou irrigação e que pode resultar no acúmulo de formas nitrogenadas, particularmente nitrato (NO-3), nas águas de rios, lagos e aquíferos subterrâneos, atingindo níveis tóxicos aos peixes e ao homem.

Outro processo que também acarreta perda do N aplicado ao solo é a desnitrificação, ou seja, a transformação do NO3 proveniente do fertilizante em formas gasosas, como NO (óxido nitroso) e N2O (óxido nítrico), que contribuem para a degradação da camada de ozônio, agravando o famoso efeito estufa, tão relacionado às mudanças climáticas globais.

Ao substituir o uso de adubos nitrogenados na cultura da soja, a FBN influencia positivamente a qualidade do solo por evitar os problemas relacionados à poluição causada por estes adubos. Além disso, o processo industrial que transforma o nitrogênio atmosférico em NH3 (amônia) demanda por volta de seis barris de petróleo por tonelada de nitrogênio produzido, implicando em grandes quantidades de gás carbônico liberadas para atmosfera no momento da produção do adubo nitrogenado.

O sucesso da inoculação da soja brasileira ” que dispensa totalmente a necessidade de uso de adubo nitrogenado nessa cultura ” é reconhecido nacionalmente e internacionalmente. Mesmo assim, alguns pontos precisam ser enfatizados, como a importância dos micronutrientes para o processo de fixação biológica do nitrogênio.

 

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Fonte: https://revistacampoenegocios.com.br